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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os Ghawazee do Egito



"Nas vilas egípcias uma dançarina profissional era conhecida como ghadziya (plural ghawazee). Os ghawazee originais eram ciganos, ainda que a palavra tenha se tornado um termo genérico para dançarinas ao invés de denotar um ou vários clãs em particular, como era o caso.(...). Em egípcio ghawazee significa 'invasores' ou 'marginais' e os ciganos sempre viveram de fato ao redor das cidades e às margens da sociedade." 
BUONAVENTURA, Wendy - The serpent of the Nile.



Os Ghawazee eram uma das tribos de dança mais famosas do Egito.
No feminino eram denominados Ghawazee posteriormente chamados Ghazeeye, e do sexo masculino foram chamados Ghazee. O nome Ghawazee era referindo-se às dançarinas. Embora eles professassem a fé muçulmana e falassem a mesma língua, não eram realmente egípcios, mas membros de uma tribo distinta. 
Os Ghawazee trajavam-se de maneira diferente do restante do povo egípcio e foram considerados por muitos como tendo as mais belas mulheres no Egito.

Escritores ocidentais relataram as dançarinas ghawazee florescendo como uma parte aceita da sociedade egípcia em 1700. Isso durou até aproximadamente 1834, quando foram banidas devido a pressões religiosas. A principal razão para o banimento foi porque não usavam o véu cobrindo seu rosto.

Em cada grande aldeia do Egito, especialmente no Alto Egito, e nas cidades do delta, eles viviam em assentamentos de tendas e barracas. Valorizavam bebês do sexo feminino e o fato de ter um filho era considerado uma desgraça econômica. Ghawazee mulheres, sem exceção, eram criadas para serem prostitutas e dançarinas. Antes de uma menina Ghawazee casar-se seu pai iria vender seus favores a quem pagar mais. Ela, então, normalmente se casava com um homem de sua própria tribo.

A tribo sempre viajou de cidade em cidade, participando de feiras e indo para os campos da trupe. Mulheres ghawazee dançavam nas ruas, geralmente passando o pandeiro depois de seus shows. Enquanto os homens da tribo tocavam instrumentos, as mulheres dançavam sozinhas ou com algumas outras garotas, acompanhando-se com snujs. Muitas vezes, o povo ghawazee dançava para ocasiões festivas no harém, em casamentos e em nascimentos. Eles tinham o prestígio de serem os mais conhecidos dançarinos no Egito e estavam entre os cidadãos mais afortunados. Sua estrutura econômica permitiu as suas mulheres adquirir considerável riqueza, fama e bons casamentos. O Ghawazee rico vestia de seda e usava colares, tornozeleiras, pulseiras de ouro e moedas. Às vezes, eles usavam um adorno no nariz. Normalmente, a sua vestimenta era quase idêntica à do egípcio de classe média. Tanto homens como mulheres pintavam seus olhos com kohl e henna em suas mãos e pés, como era o costume da classe egípcia média e superior. 
Alguns Ghawazee adquiriam considerável riqueza, escravos e gado.

Dança


É uma dança ‘’da terra’’, um pouco pesada, muito voluptuosa, e definitivamente não é graciosa.
Shimmies, twistis e redondos grandes são uma comunhão de todas as formas de dança do ventre, mas a grande marca era o quadril com shimmies geralmente torcido para frente e para trás, paralelo ao chão, ao invés de um movimento vertical para cima e para baixo. Eles incluíram muitos gritos agudos e zaghareets, alguns trabalhos ocasionais de chão e cabeça e a utilização dos snujs. O gesto mais frequentemente implícito na dança era um chamado para o público a participar e bater palmas com a música, usado também para pedir dinheiro.

Se você estiver interessado em adquirir música Ghawazee autêntica pesquise em Aisha Ali da Califórnia. Ela produziu um CD de música excelente intitulada ‘Ghawazee, e também o vídeo documentário,’ Danças do Egito’. Ele mostra cenas reais de bailarinos ghawazee. 
Para uma excelente referência pictórica e narrativa de Dança do Oriente Médio, leia um exemplar de ‘Wendy Buonaventura’ que escreve sobre mulheres e as danças do Nilo.



Hoje em dia se usa o termo ghawazee pra qualquer dançarina que se apresente em eventos ao ar livre, como casamentos de pessoas simples ou festivais religiosos. Durante algum tempo, mesmo no ápice do período islâmico clássico, de 800 ac até 1300 ac, o termo ghawazee, que pode ser traduzido como " invasores do coração", provavelmente se referia as dançarinas livres que se apresentavam publicamente e aos cantores, pertencentes ao Nawar, descendentes dos Roms, que migraram para o sul do Egito, na área rural durante a Idade Média. Instrumentos musicais antigos como Mijwiz e o Rebab, representados nas paredes de tumbas egípcias, são ainda hoje utililizados pelos músicos nawar. Os movimentos das ghawazee assim como sua música tradicional não parece ter se modificado com o tempo. É como se pouco ou nada tivesse sido tocado pela modernidade.


Nos últimos 20 anos, uma família de músicos e dançarinas do sul do Egito se tornou famosa. As Banaat Maazin, literalmente , filhas de Maazin, tem sido dançarinas por gerações, e são muito conhecidas por seu  estilo peculiar nas apresentações. Elas aprenderam a dança de suas mães e avós. O patriarca , Yusef Maazin, morreu há muitos anos atrás, e agora apenas Khairecya, a mais nova das filhas de Maazin, ainda se apresenta. Suas irmãs e primas se casaram, o que geralmente encerra a carreira de uma dançarina, ou se aposentaram por outra série de razões, incluindo a falta de trabalho em função da pressão exercida pelo ressurgimento dos grupos fundamentalistas muçulmanos. Yusef não tinha filhos para se tornarem músicos ou gerenciarem as dançarinas perpetuando os negócios da família. Como a história da família se perdeu, a tradição oral deste estilo de dança também pode desaparecer porque as filhas se recusam a aceitar que suas crianças cresçam na mesma profissão familiar.
Em sua forma típica de dança folclórica Egípcia, a seqüência ghawazee não é coreografadas, em lugar disso, as dançarinas, usualmente tocam sagat, e músicos seguem um programa musical familiar que não tem uma estrutura fixa, com configurações típicas de dança intercalada com esquemas de entretenimento, como por exemplo ter um Rabeb colocado sobre o peito da bailarina enquanto está sendo tocado. As dançarinas freqüentemente imitam as danças tradicionais masculinas, como o tahteeb ou danças de luta, ou mesmo a dança dos cavalos, brincando durante sua dança com um bastão ou bengala. Em casamentos e festivais, as ghawazee muitas vezes dançam em grupo, formado por pessoas da sua própria família. Quando existe a possibilidade, dançam sobre pequenos palcos e até mesmo nas mesas. As vezes se revezam dançando sozinhas ou em pares, ou em pequenos grupos que se modificam em sua formação durante o decorrer da dança. Apesar da dança ser ao vivo, os movimentos são muito relaxados e ambos, músicos e dançarinas se mesclam muito bem. As apresentações em casamentos podem durar de seis a oito horas, e os artistas descansam muito pouco durante todo o tempo.
Historicamente, apesar de muitas ghawazee serem famosas e muito solicitadas como artistas, sua raiz cigana era e continuou a ser um motivo para deixá-las a margem da sociedade. Isto se deve aparentemente a duas razões. Em muitas áreas do Oriente Médio, incluindo o Egito, o caráter moral das dançarinas e músicos que se apresentam publicamente para platéias mistas de homens e mulheres, é altamente suspeita. Muitas das dançarinas eram e ainda podemos encontrar hoje outras que são, prostitutas, e, em diversas épocas a palavra ghazeeya foi usada como sinônimo para a palavra "prostituta" no Egito. No século dezesseis durante o reinado Otomano, as dançarinas eram categorizadas  junto aos grêmios e grupos comerciais de cortesãs para propósitos de taxação de impostos. Também por serem ciganos eram vistos como estrangeiros ou forasteiros na comunidade em que viviam, e portanto insatisfatórios como fazendo parte do dia a dia da comunidade. Isto é ilustrado claramente por um sério insulto , que pode ser escutado até hoje na parte sulista do Egito, “yabn al-ghazeeya" literalmente traduzindo, "filho da ghazeeya". Isto acaba contribuindo para o isolamento cultural e a resultante natureza estática da sociedade Nawar,  a qual isola suas tradições- incluindo as apresentações, e o estilo ghawazee, das modernas e ocidentais influências, e ajuda a preservá-las.
Por último, seria bom enfatizar o quanto este estilo de dança tem se perdido. A contínua ameaça de violência em festas de casamento  por fundamentalistas religiosos tem destruído a tradição de contratar dançarinas para as cerimônias de bodas em algumas áreas do Egito. Em algumas ocasiões, as casas das famílias que contrataram uma bailarina, foram literalmente postas abaixo por grupos enfurecidos. Conseqüentemente , autoridades locais permitem a dança de forma legalizada mediante uma concessão, o que ocorre é que para ter a autorização oficial, os requerimentos e impostos pagos são altamente proibitivos.Nesta atmosfera, a genuína dança das ghawazee pode desaparecer completamente, e apenas aquelas que tenham se esforçado para aprender delas e reproduzir de forma verdadeira aquilo que viram, poderão manter este estilo vivo em algum outro lugar.




O artigo de vestuário conhecido como casaco ghawazee, é talvez o mais famoso traje usado por artistas de rua no Egito, graças a artistas europeus como Gerome. Derivado de um traje que é no final das contas, persa em sua origem, este casaco ou colete, teria sido introduzido na parte norte ou baixo Egito com a expansão do Império Otomano no século XVI. Outrossim, a maioria das descrições do casaco ghawazee, mostrando o mesmo enrolado ou cortado logo abaixo do busto, são do século XVIII ou depois desta época, o que permitiu pintores ocidentais ter sua própria versão deste traje, eternizado em telas que contavam as impressões sobre esta parte do mundo. Enquanto ensinava, Khaireeya usava um vestido de corte similar ao que é chamado de "l'ancient tunic" por antropologistas muitas vezes referido como vestido baladi por dançarinas. O colete e a saia usada para apresentações, favorecida pelas ghawazee durante a maior parte do século XX - o qual evoluiu do colete turco do século XVIII e foi supostamente criado por ancestrais de Banaat Maazin- foi substituído por vestidos com bordados e franjas e cintos similares aos usados como trajes folclóricos no palco, e hoje em dia utilizados por bailarinas profissionais no Cairo. Por outro lado, os mesmos trajes hoje usados no Cairo derivam dos vestidos folclóricos cobertos por fileiras e fileiras de franjas de canutilho e contas, que as ghawazee criaram para os shows turísticos nos anos cinqüenta.
Para aquelas que desejam recriar uma forma tradicional de dança como a dança de Banaat Maazin, tome muito cuidado para manter a precisão tanto quanto for possível. Em troca, seu cuidado servirá para prolongar a existência dessa forma histórica de dança, e mantê-las etnicamente e tecnicamente distintas do gênero conhecido como forma geral pelo nome de Dança Oriental.



Referências:


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